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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Apenas um conto: Sem escapatória.


O dia amanheceu. Finalmente, a noite fria e cruel passou. Quem sabe o calor do sol faz com que eu me sinta melhor com relação a mim mesmo? Odeio errar, mas -ao mesmo tempo- parece que não consigo parar de errar. Abro as cortinas e vejo os primeiros raios de luz cortarem as nuvens negras que antes cobriam o céu, saio do meu quarto e ligo a TV. Roubos, mentiras e desastres enchem o noticiário vespertino. O mundo não parou de girar com o meu erro, mas o meu coração ainda chora por causa do mesmo.


Passei a noite inteira pensando se algum dia poderei ser perdoado, se algum dia, as pessoas voltariam a me respeitar e se, em algum momento, esse meu erro seria esquecido por mim e pelos outros. Não sei, e tenho medo de descobrir que só serei reconhecido pelos meus erros. Olho pela janela mais uma vez. O Sol ainda brilha entre as nuvens, mas as nuvens negras invadem novamente o céu. Acho melhor passear um pouco antes que a chuva volte.

A cidade está acordando aos poucos. Não me lembro em que dia estamos. Talvez uma segunda, quem sabe uma quinta-feira? Não sei, não me importo. Tento não pensar no passado, mas estou perto demais de casa. Preciso me afastar. Entro no primeiro ônibus que vejo, espero que ele vá para longe. A cidade vai ficando cada vez mais cinza e escura, a chuva não deve demorar a cair. Permaneço no ônibus até não reconhecer a cidade em minha volta, assim que chego a um bairro desconhecido para mim, desço do ônibus e volto a caminhar. 


As pessoas já começam a andar mais depressa e com os seus guarda chuvas em mãos, preparados para a tempestade que logo deve se iniciar. Tudo parece cinza e sem vida. As cores que trazem alegria foram substituídas por tons de tristeza e amargura. Ouve-se um estrondo. Barulho de gotas grandes e pesadas de água caindo no chão começa a tomar conta da cidade. A chuva começou. Vejo pessoas correndo, tentando escapar da chuva, querendo sair da chuva. Eu penso em tentar correr, mas não adianta. Agora sei que não posso escapar. Por mais que eu tente, jamais irei escapar dos meus erros. A cada gota de chuva que cai sobre mim, sinto como se o mundo estivesse apontando os seus dedos para mim, rindo de quem eu sou. "Meu passado me condena"? Então não tenho escapatória, tudo que posso fazer e cair de joelhos, chorar e ouvir o que o mundo tem para falar de mim.


De joelhos, chorando em meio uma tempestade em um bairro desconhecido, ouço uma voz chamar "Ei! Ei, moço, sai dessa chuva!", olho para a minha direita e vejo uma senhora na varanda de sua casa "SAI DESSA CHUVA!", olho a minha volta. Sou o único da rua, por quê ela se importa? "Não se preocupe, estou bem, eu quero ficar na chuva!", respondo. Ela se vira e entra em sua casa. No final das contas ela não se importava, acho que ela só queria que eu saísse da frente da casa dela. Acho que eu vou...


Ouço o barulho de uma porta se abrir. A senhora voltou, está com um guarda chuva e está vindo em minha direção. Talvez ela tenha vindo me expulsar do seu bairro. "Você pode até dizer que quer ficar na chuva, mas eu não vou deixar uma rapaz bonito que nem você pegar pneumonia!", diz a senhora enquanto me levanta pelo braço, "Vem, vou fazer um chocolate quente para você.". Eu quero me soltar e ir embora, mas fico tão surpreso com a atitude dela que não consigo contraria-la.


Ela me leva para dentro da sua casa, joga uma grande toalha em meus ombros "Vou pegar umas roupas velhas que meu filho deixou aqui da época em que ele morava comigo, acho que elas devem caber direitinho em você. Pode sentar no meu sofá perto da lareira para se esquentar.", só consigo agradecer e obedecer. Será que ela não me conhece? Ela não sabe quem eu sou e o que eu fiz? Quando ela volta com as roupas, agradeço mais uma vez e vou no banheiro me trocar "Pode deixar a sua roupa molhada pendurada no box do chuveiro." disse a senhora. Ainda estou pasmo. Não consigo acreditar que alguém seja capaz de tamanha generosidade, ainda mais se ela souber quem eu sou. Não, ela não sabe. Não pode saber! Como poderia ser gentil com alguém como eu? Ao sair do banheiro, vejo que ela está sentada perto da lareira segurando uma caneca em suas mãos.


- Senhora,...

- Dona Berta, pode me chamar de Dona Berta -disse ela me entregando a caneca.
- O que é isso?
- O chocolate quente que disse que faria para ti.
- O-obrigado, mas...
- As roupas do meu filho ficaram bem em você, apesar de terem ficado um pouco largadas no seu corpo. Você me lembra um pouco dele -ela disse isso com um pequeno sorriso.
- Dona Berta, obrigado, obrigado mesmo, mas posso te perguntar uma coisa?
- Claro!
- Por quê a senhora me tirou da chuva?
- Ora, -disse ela como se tivesse ficado indignada pela minha pergunta- eu não queria que o senhor ficasse doente! Pneumonia mata, sabia?
- Eu sei Dona Berta,...
- Agora, se você me permite, o que você estava fazendo de joelhos numa chuva como essa?
- E-eu estava... Estava...
- Estava o que?
- A senhora por acaso sabe quem eu sou?
- Sei sim.
- Então por quê...
- Você é um jovem que não quer admitir a culpa de seus erros!-disse ela em um tom irônico- Você quer fugir de seus problemas, mas não consegue. Sabe por quê?
- A senhora não me entendeu...
- Porque é impossível! Todos temos problemas e somos culpados de alguma coisa, o que diferencia os molengas, dos guerreiros. Os molengas, fazem que nem você estava fazendo naquela chuva, eles aceitam a opinião dos outros, não fazem nada e aos poucos se tornam o que os outros dizem que eles são. Os guerreiros, não cedem, não param de lutar! Eles também erram, mas admitem os seus erros e, apesar do que os outros dizem, continuam na luta para se tornarem pessoas melhores.-Dona Berta disse essas palavra no mesmo tom que um pai ensina o filho a diferença entre o certo e o errado, mas ela não sabem quem eu sou.
- MEU NOME É GUILHERME DOS SANTOS! EU NÃO SOU GUERREIRO OU MOLENGA, -respondi enquanto começava a chorar- SOU UM ASSASSINO! POR MINHA CAUSA, CRIANÇAS E ADULTOS MORRERAM! POR CAUSA DA MINHA BEBEDEIRA, EU ENTREI COM O MEU CARRO EM UM PORTÃO DE ESCOLA NO HORÁRIO DE SAÍDA DOS ALUNOS! 5 CRIANÇAS E 1 ADULTO MORRERAM,POR MINHA CULPA! CLARO QUE EU QUERO FUGIR DA MINHA CULPA, MAS NÃO DÁ. COMO VOU LUTAR COM A OPINIÃO DOS OUTROS QUE ME CONDENAM COM RAZÃO? COMO?

Eu me derramo em lágrimas. Ao cair de joelhos mais uma vez, a senhora se aproxima, me abraça e começa a chorar também.

-Como eu vou me perdoar pelo que eu fiz Dona Berta? Como eu vou me perdoar se eu, que merecia ter morrido, ainda estou vivo e eles, que mereciam estar vivos, estão mortos? Como? -pergunto aos prantos.


Ela me abraça ainda mais forte, e continua a chorar. Ela só consegue dizer o seguinte: "Eu sei quem você é, e o que você fez. Meu filho era o monitor que cuidava das crianças no horário da saída. Eu te reconheci no momento em que te vi da minha varanda. Como você vai se perdoar? Da mesma forma que eu te perdoei pelo que aconteceu ao meu filho.". Não acredito, como é possível? Só consigo chorar e chorar. Ela me perdoou? ME perdoou?! Não sei por quanto tempo fico ali chorando com ela, mas não consigo soltar. Não quero soltar.


Depois que as lágrimas pararam de correr, não consigo parar de imaginar e pensar. Não resisto. Preciso saber.


- Por quê?

- Por quê o que?
- Por quê a senhora me perdoou? Se eu não tivesse ido dirigir depois de beber, seu filho ainda estaria aqui.
- Talvez sim, talvez não. Eu não sei, mas o que eu sei é que sentir ódio de você, não o trará de volta. Da mesma maneira que você sentir ódio de você mesmo, não vai mudar o que aconteceu. Já faz um ano que tudo aconteceu Guilherme, está na hora de parar de pensar no passado, e começar a viver o presente.
- Mas e as pessoas que me reconhecem na rua? E os que me chamam de assassino?
- Você ainda bebe? Se arrependeu do que fez?
- Não, não quero mais nenhuma gota de álcool em minha boca! Sim, me arrependi. Nunca mais farei algo parecido.
- Então a única coisa que falta fazer é mudar os seus caminhos e provar para eles que você não é mais o mesmo. Prove para eles, e para si mesmo que você já é um novo homem!

Ao olhar pela janela, vejo que a chuva passou. "Acho que você pode ir pra casa agora. Pode ir com as roupas do meu filho, você pode passar aqui outra hora.". Por mais que não quisesse concordar, estava na hora. Já demorei demais para tomar uma atitude. Dona Berta está certa, vou provar para eles que sou um novo homem.


- Obrigado Dona Berta! Obrigado por tudo, inclusive o chocolate quente!-disse enquanto abraçava ela.

- Sem problema, não demore muito para me visitar novamente. 

Me levantei, sai pela porta, virei para trás e me despedi mais uma vez, e depois parti. Agora sei que meus erros não me definem. O que me define, são as atitudes que tomo para corrigir eles. Sou um novo homem.   



THE END

Bom dia pessoas, tudo bem? Eu queria fazer algo diferente antes de postar a parte final do caso atual do detetive Brown. Espero que vocês tenham gostado. Esse tipo de texto não vai ser tão frequente, já que nesse tipo de texto eu dependo mais da inspiração do que a imaginação, mas pretendo continuar postando textos assim. Obrigado pelo seu tempo. Um bom resto de semana a todos. 
Be Blessed