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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Detetive Brown: Era uma vez (Parte Final)


(Por favor, leia a parte 7)

Passo por alguns faróis vermelhos, mas não me importo. Em condições normais, eu demoraria de 40 à 50 minutos para chegar ao teatro, mas não estou sob condições normais. Com a possibilidade de encontrar os meninos sequestrados e risco de morte dos mesmos, não posso me preocupar com as leis de trânsito. Daniel não diz nada, está apenas segurando sua arma sussurrando algumas palavras para si. Algum tipo de oração. Eu estou indo para uma situação que foge totalmente de meu controle. 7 meninos estão sendo mantidos em cativeiro para, o que eu acredito que seja, uma execução pelo que aconteceu com Jean Coldie. Não gosto disso. Normalmente, pediria reforços para Marshal, porém, como os pais dos meninos foram ameaçados -caso contassem alguma coisa para a polícia, haveria consequências- é bem provável que alguém da policia está envolvido com esse sequestro. Não posso correr o risco de pedir ajuda para ele e um policial corrupto avisar a sequestradora que estamos indo.

- A-adam, -diz Daniel em uma voz trêmula- o que vamos fazer assim que chegarmos?

- Você vai entrar pela porta da frente, em silêncio, e procurar pelos meninos. Eu vou pela porta dos fundos fazer o mesmo. - respondo- Assim que você encontrar qualquer sinal deles, me chame. Se você encontrar Samantha (Mãe de Jean), faça com que ela se renda e me chame.

-Entendido... Vou fazer o meu melhor! -Responde em um tom que me preocupa.

- Olha, Daniel, -digo para tentar acalma-lo - não entre em pânico. Tudo dará certo! Só mantenha o foco em salvar aqueles meninos, está certo?

Ele balança a cabeça em concordância. Droga, ele não está pronto para enfrentar uma situação que nem essa, mas é a unica ajuda que posso contar no momento. Ao ignorar incontáveis leis de trânsito, consigo chegar ao local em 25 minutos. o que me deixa com aproximadamente 15 minutos para salvar os meninos. Espero que seja o suficiente.

- Daniel, não se esqueça do que eu te falei -digo ao descer do carro- e, por favor, mantenha a calma e foco nos meninos.

- Claro Adam, -diz ao também descer do carro- não vou decepciona-lo.

Daniel segue em direção a porta principal do teatro enquanto sigo para a porta dos fundos. A noite está carregado com o peso da morte. Uma garoa fina cai sobre o frio asfalto, criando um som suave e perturbador característico da solidão. Ao me aproximar, vejo que a fechadura da porta está arrebentada. Ouço barulho de algo quebrando na distância e recebo uma mensagem de Daniel dizendo que a porta principal estava trancada. Pelo jeito, a entrada foi pelos fundos mesmo.

Com a arma em punho, entro pela porta e ilumino a escura entrada com minha lanterna. Sinto as veias que percorrem minha cabeça pulsarem, meu coração bate forte, meus músculos se contraem a cada passo que dou, mas continuo seguindo em frente. Adentro a área dos bastidores, com a luz da minha lanterna examino as salas. Roupas sujas, tintas de maquiagem espalhadas, mas nada dos meninos. 5 minutos se passam e não consigo encontra-los. Onde será que ela os...

- ADAMMMM!!!

*BANG* *BANG*

Droga, essa era a voz de Daniel! Os tiros vieram da parte da entrada do teatro! Ao sair dos bastidores, passo pelas cortinas, entro na palco e me deparo com todos os meninos caracterizados como anões, amarrados e amordaçados em cadeiras ao redor de uma grande caixa no centro do palco. Não tenho muito tempo para pensar, corro com sacrifício na direção das crianças para liberta-las...

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!!! - Um urro abafado voa em minha direção por detrás das cortinas.

Ao me virar, sou atingido pela mesma figura vestida de preto usando um capacete vermelho de cor brilhante. O ataque me pega de surpresa e por isso não consigo usar minha arma a tempo. Sou jogado em direção a platéia, junto com o meliante. A dor de atingir o chão duro e frio do teatro é indescritível. Minha arma sai voando de minha mão, e perco a unica chance que tinha. O agressor cai do meu lado e parece ter sentido a dor do impacto como eu. Infelizmente, isso não o impede de se recuperar mais rápido e vir na minha direção. Subindo em mim, novamente, sou coberto por pancadas e pontapés.

- VOCÊ NÃO VAI ME IMPEDIR!!!- diz o agressor com sua voz abafada pelo capacete.

A dor é enorme. Com meus ossos moídos pelo nosso ultimo encontro, estou em desvantagem. Espere, essa voz... Não é a mesma voz que ouvi na caverna! Essa voz é mais feminina! Deve ser a mãe de Jean.

- SAMANTHA, PARE! -grito tentando persuadi-la- O QUE JEAN PENSARIA SE TE VISSE AGORA?

- AAAAAAARRRRRRGGGGHHHH!!- grita por detrás do capacete.

Ela d um soco em minha cara e vira em direção ao palco, aproveito a oportunidade para puxa-la pelo pé e derruba-la. Arrasto-me para pegar minha arma e consigo. Quando me viro, vejo que ela está subindo no palco e tirando uma faca de seu bolso. Ela provavelmente está usando um colete a prova de balas, não posso arriscar o tiro se ela tem chance de recuperar-se e tirar a vida de um dos garotos. Eu me ponho de pé, aponto a arma em sua direção enquanto ela se põe de frente a um dos meninos - pronta para o esfaquear.

- SAMANTHA, POR FAVOR!- grito com todas minhas forças- NÃO FAÇA ISSO! PENSE NA SUA FILHA! O QUE ELA IRIA ACHAR DE VOCÊ SE TE VISSE MACHUCANDO OS AMIGOS DELA?

- Amigos?- ela quase que sussurra por trás do capacete antes de gritar- AMIGOS? VOCÊ ACHA ESSES BASTARDOS EGOÍSTAS ERAM AMIGOS DE MINHA FILHA? ELES A ABANDONARAM QUANDO ELA MAIS PRECISOU!! E HOJE, -voltou a abaixar seu tom de voz- vou vinga-la...

- Samantha, não faça isso! -tento chamar sua atenção- Olha, eu sei como você está se sentindo. Eu...

- VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUE EU ESTOU SENTINDO!!- grita ao tirar o capacete e fitar seus olhos em mim.

Preciso tentar convence-la que há um melhor caminho do que esse. Achar outra maneira que não culmine em outra morte.

- Infelizmente, eu sei sim. -digo ao abaixar minha arma devagar- Minha esposa e filha adotiva morreram em uma explosão, causada por algum lunático. No mesmo dia meu melhor amigo morreu... Assassinado a sangue frio. - percebo que consigo a atenção dela e continuo - Por meses culpei os homens responsáveis pela morte delas, mas no final das contas, não importava o que eu fizesse, eu jamais as teria de volta... Achava que não valia mais a pena viver sem elas. A dor nunca sumiu, mas aprendi a viver com ela e hoje tento compensar meus erros ajudando os outros.

- Mas... -ela diz ao esmorecer- Ele disse que a hora era chegada, disse que eu finalmente poderia colocar um ponto final nisso...

- Quem te disse isso?- pergunto surpreso enquanto me aproximo do palco.

- O homem que me deu essas roupas e me prometeu justiça...

Ela é interrompida pelo barulho de sirenes do lado de fora do teatro. "O local está cercado! Solte os meninos e saia com as mãos para cima, antes que a situação piore!", ouço Marshal falando por um megafone. Como foi que ele descobriu que tinha que vir para cá?

- Você estava certo sobre uma coisa detetive...-diz ao olhar para um dos meninos- Não vale mais a pena viver!

Subitamente, ela levanta a faca e prepara o ataque...

*BANG*

Da mesma forma que levantou a faca, ela cai. Subitamente. Subo no palco e começo a soltar os meninos. Alguns instantes depois do disparo, a força policial entra pela porta com voz de prisão. Espero até perceberem o que aconteceu e depois que Marshal entra, ele me chama de canto enquanto os meninos são atendidos pelos médicos e policiais.

- Adam, o que você está fazendo aqui? -a irritação em sua voz é visível- Era para você estar em uma cama de hospital agora! No que você estava pensando?

- Você quer saber o que eu estava pensando?- tento manter a calma- Eu estava pensando em como minha esposa e filha adotiva morreram e eu falhei com elas. Pensei em como Jimmy se sentiria se me visse desistindo de procurar por esses meninos. Era nisso que eu estava pensando. Como você chegou até aqui de qualquer forma?

- Daniel me ligou. Disse que a sua investigação os trouxe até aqui e que precisavam de uma ambulância. -respondeu- Ele foi baleado e está indo pro hospital.

- O que? -digo surpreso- Depois nos falamos Marshal.

Viro as costas e caminho para a saída. Marshal resmunga algumas coisas mas não dou ouvidos. Vou para o meu carro visitar Daniel no hospital. Espero que aquele garoto esteja bem.

O meninos estão a salvo, mas nunca estive com tantas duvidas em minha mente. Será que se as circunstâncias fossem diferentes, eu teria seguido o caminho da Samantha? Será que o homem que deu as vestimentas para Samantha, é o agressor da caverna? Os meninos estão a salvo, mas a que preço? Sangue precisou ser derramado e, mais uma vez, presencio a instabilidade da sanidade humana. Gostaria de te-la ajudado... Os jornais contarão a história de como os meninos sobreviveram um sequestro e, agora, podem viver suas vidas superando esse trauma. Infelizmente, tudo que vou me lembrar é de ter minhas mão sujas com sangue, mais uma vez.

CASO ENCERRADO.